Quinta-Feira, 23 de Julho de 2020 - 12:30 (Colaboradores)

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LIVRE

Memórias póstumas da Flor do Mamu - Por Marquelino Santana

Os pais da criança pedem clemência no desespero de salvar a vida da flor do Mamu.


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Era o ano de 2008. Dois anos após o presidente Evo Morales assumir o poder do governo boliviano. A política de reforma agrária do seu governo chega até a fronteira com o Brasil, mais precisamente na Região da Ponta do Abunã no Estado de Rondônia.

O alvo dos “campesinos” era o rio Mamu, afluente do rio Abunã. O Mamu nasce no Município de Santa Rosa del Abuná, atravessa o Município de Ingavi até despejar as suas águas no Município de Santos Mercado, Província Federico Román no Departamento de Pando.


Seringais do rio Mamu/Pando/Bolívia - Fonte – Base cartográfica da Bolívia

Dominado pela ideia causticante de desenvolvimento, o governo boliviano se cala diante das atrocidades de desgraça e infortúnio cometidas contra as populações tradicionais do rio Mamu. Distanciados dos direitos humanos internacionais, abnegados ao ser e absortos naquela região fronteiriça, os seringueiros brasileiros da floresta pandina boliviana foram banidos e duramente escorraçados do seu lugar por “campesinos” fortemente armados, uma espécie de grupo paramilitar ou milicianos à serviço do estado totalitário evista.

A flor do Mamu nascera um ano antes, desabrochou no coração e na contemplação da exuberante floresta pandina boliviana. O inebriante brilho da flor estabelecia uma dimensão espiritual entre o seu imaculado estado criador e o colo da natureza devaneante.

A família resiste e quer viver

A família luta e carrega sua fé

A família tem a guerreira mulher.

A mulher tem criança para nascer

O seu parto precisa acontecer.

A mulher carrega o peso da cruz.

A mulher é estrela que reluz.

A mulher é forte, ela aguenta

A bolsa estoura, se arrebenta

A mulher acaba de dar à luz

As famílias ribeirinhas foram tomadas de surpresa com a chegada da milícia armada que as expulsavam do seu lugar tradicional. A truculência se tornou maior quando os milicianos resolveram deixar as famílias retidas na comunidade de Puerto Bolívia às margens do rio Mamu. Os campesinos atravessaram uma corda no rio e determinaram que nenhuma família seringueira entrasse ou saísse do porto.


Santana, FM. Gepcultura. Batelão no rio Mamu. Pando – Bolívia. 2010

Em um dos batelões a flor do Mamu tremia de febre numa rede armada na embarcação. A liberdade fora transformada num cárcere, como que um calabouço fluvial estagnado sob as águas do Mamu. Os pais da criança pedem clemência no desespero de salvar a vida da flor do Mamu. Foram três dias de agonia, até que finalmente receberam autorização para seguir viagem até o Brasil, mas era tarde, a criança chega a óbito ao Hospital Regional de Extrema. Mergulhada na tristeza e frustração, a família desapega-se com a terra e desnorteada na devassidão de ter a vida da flor ceifada, ficou dissipada ao desengano e fracasso. Num estado de profundo desânimo e na divagação da vida, o que era um lar de felicidade passou a ser um silencioso desagregamento familiar.


Santana, FM. Gepcultura. Seringal Cumaru. Rio Mamu. Pando – Bolívia. 2010

O hospital de Extrema recebeu

Uma linda e pequenina flor

A família noticiava a sua dor

E o amor que tanto a ela deu

A flor do Mamu morreu

Chegou a óbito no hospital regional

A flor do Mamu deixou o seu seringal

E agora, ela não vai mais voltar.

Sua morte a história vai registrar

Num descaso que é binacional

A obstinada família brasiviana se despede do 'Seringal Providência’ e uma cruz enterrada no chão marca o fim de um irmanado relacionamento com a floresta e toda sua heterogeneidade. No silêncio da árdua comoção e na degradação da paz fronteiriça, a resistência tenaz da coletividade ribeirinha do rio Mamu tornou-se vulnerável diante da mais truculenta xenofobia reinante.

Tu és o retrato do pior abandono

Tu és mais um anjo que Jesus recebeu

Tu és uma flor que ninguém socorreu

Tu és nosso grito, sem pátria, sem trono.

Tu és excluída de uma terra sem dono

Tu és o lamento da cruel opressão

Tu és a bandeira, sem escola e sem pão

Tu és nossa flor que adormeceu e partiu

Tu és a chegada sem vida ao Brasil

Tu és um pedido de justiça a nação

Marquelino Santana é doutor em geografia e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir.

Fonte: Marquelino Santana

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