Quarta-Feira, 22 de Julho de 2020 - 09:33 (Educação)

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Em meio ao impasse da volta às salas de aula, incertezas são compartilhadas por pais, alunos e professores

Preocupação é com contaminação de estudantes, contágio em casa e risco de segunda onda da pandemia de Covid-19


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O anúncio do prefeito Marcelo Crivella de autorizar o retorno às aulas de escolas particulares a partir do próximo dia 3 deixou pais, alunos e professores preocupados, inclusive os das escolas públicas. O maior temor é a possibilidade de gerar uma segunda onda da Covid-19 no Rio, impactando também quem mantinha isolamento social mais rigoroso por ter pessoas de grupo de risco em casa. As incertezas e os receios são muitos. Se as instituições vão conseguir seguir à risca as novas regras, e se o plano será o suficiente para impedir a contaminação entre os alunos, dentro e fora da sala da aula.

A nova rotina também não deve ser tarefa fácil. Entre as mudanças, as atividades não poderão ter objetos compartilhados, como brinquedos, livros e materiais de arte. Mas como controlar as ações também para além dos muros, como na ida para a escola no transporte público?

—  Boa parte dos pais não quer mandar seus filhos agora. Acham precipitada a decisão de Crivella. Está todo mundo aqui no grupo de pais desesperado. Eu não vou mandar meus filhos. Aqui em casa tem gente do grupo de risco. Não vou seguir a cabeça do prefeito. E muitos não vão mandar também — comentou o arquiteto Guilherme Osborne, pai de gêmeos de 16 anos, estudantes do colégio Santo Inácio, antes de saber das novas regras anunciadas pelo prefeito, em coletiva de imprensa, no fim da tarde desta terça-feira.

Medo do aumento de casos

Guilherme Osborne acredita que o mais seguro será retornar quando tiver a vacina. O temor é de a flexibilização levar ao aumento no número de casos de Covid-19 no município.

— Não tem essa história de criança pega de leve. Então, isso pode resultar na tal da segunda onda. A doença não passou de todo, ainda não existe vacina e acho que as escolas particulares devem continuar com aulas virtuais — sugere.

Mãe de outro estudante do colégio, do segundo ano do Ensino Médio, Renata Prates considera "absurdo" o retorno neste momento, em que ainda há incertezas sobre a pandemia de Covid-19.

— Eu sou totalmente contra esse retorno. Acho um absurdo! Tanto que o colégio fez uma pesquisa conosco, pais, uma semana atrás, perguntando se o retorno fosse em agosto se nós mandaríamos nossos filhos. Eu disse que não. E se fosse em setembro, eu também disse que não. Conheço muita gente que também não concorda com o retorno —  conta ela, que acredita que a escola vai optar pelo método híbrido (aulas virtuais e presencial, apenas para quem optar).

Aglomerações dentro e fora das escolas

Diogo de Andrade teve Covid e ficou 21 dias isolado da família. Professor de Língua Portuguesa na Escola Municipal Georg Pfisterer, ele também está preocupado. Pai de dois filhos, estudantes da mesma unidade, Diogo acredita que a cidade ainda não está preparada para o movimento de estudantes nas ruas e em transportes públicos. Com a mulher, que está grávida, decidiu que os filhos de 12 e 14 anos não voltam às aulas até eles se sentirem seguros.

— Temos 1.200 alunos para dois inspetores por turno. No recreio, 600 alunos ficariam de que jeito? A maioria dos nossos alunos vem da Rocinha, com 80%, e os outros do Vidigal, da Cruzada São Sebastião, Tijuquinha e Rio das Pedras, além de filhos de porteiros da região do Leblon. Quem no transporte público usa máscara direito? Então, imagina o aluno saindo de casa, encontrando com seus colegas e todos pegando um ônibus cheio porque coincide com o horário escolar e do trabalho das pessoas — argumenta, lembrando dos riscos de a cidade não ter testagem em massa.

Readaptação para evitar a contaminação

Além dos transportes sem ventilação, Diogo de Andrade lembrou que as escolas se adaptaram para receber aparelhos de ar-condicionado e fecharam janelas para facilitar a climatização. O conjunto das "regras de ouro", divulgado pela prefeitura na tarde de terça-feira, determina o cuidado em manter o ambiente arejado, com portas e janelas abertas e aparelhos de ar-condicionado com a limpeza em dia. A dúvida é em como isso será aplicado em cada instituição e nos obstáculos que os alunos têm pelo caminho.

— Muitos transportes públicos, por conta da climatização, não têm janelas. Nos próprios ônibus do BRT, as janelas não abrem. E imagina no engarrafamento quanto tempo essas pessoas vão ficar dentro de um mesmo ambiente respirando o mesmo ar? E no Rio não há testagem em massa — observa.

'Vai ter EPI para todos os profissionais de Educação?'

Para Diogo, até o escalonamento de alunos pode trazer riscos na sala de aula das escolas públicas.

— Colocar metade dos alunos em sala, por exemplo, vinte alunos mais o professor ou a professora, ainda é muita coisa. São 20 famílias diferentes, 20 trajetos diferentes até a escola. E lá temos outro desafio, que é como manter esses adolescentes com máscara, fazendo a higienização das mãos. Será que vai haver EPI para todos os profissionais da Educação? O álcool vai chegar em quantidade suficiente e será reposto no tempo adequado?

Juan Leandro, de 14 anos, que cursa o 9º ano da Escola Municipal Georg Pfisterer, acha que as voltas às aulas seriam um risco neste momento. Mesmo que haja dificuldades em fazer os deveres de casa passar dos professores por um aplicativo de celular.

— Acho que a gente devia continuar assim, afastado, não ter aula, para todo mundo ficar bem e não pegar o vírus. Porque se nós formos à escola os professores não vão conseguir segurar os alunos na sala de aula com máscaras. Toda hora lembrar de passar álcool em gel. Os mais velhos até que podem vir a ter responsabilidade, mas os mais novos, não.

Enquete sobre retorno

O anúncio feito pelo prefeito Marcelo Crivella a respeito da volta às aulas foi recebido com cautela pelas escolas particulares — as instituições públicas continuam com o calendário sem definição. Além de pensarem nas estratégias para se adaptar às novas regras — e criar algumas próprias —, a participação dos pais tem sido fundamental para entender se o retorno misto (com aulas presenciais e on-line) seria bem aceito. Mesmo as que optaram por reabrir, notam as discordâncias de opiniões.

O Colégio Andrews, no Humaitá, é um dos que ainda não bateu o martelo. O diretor da instituição, Pedro Flexa, informou que cada família poderá definir o momento em que se sentirão seguras para deixar o aluno voltar a frequentar a sala de aula.

— Mas não obrigaremos os alunos a nada, tudo será conversado e decidido antes — disse o diretor.

Com 14 unidades no Rio, a rede pH ainda avalia quando ocorrerá o retorno presencial, que será feito em rodízio.

— Os alunos vão poder optar por seguir no ensino remoto. Temos um grupo considerável de famílias que ainda não estão confortáveis com o retorno presencial. Na pesquisa que realizamos, um pouco mais da metade não pretende voltar no início — diz Vicente Delorme, diretor de planejamento do Colégio pH.

Confira as regras de ouro para volta às aulas

- Higienizar as mãos antes e depois de cada atividade

- Em áreas de circulação, incluindo banheiros, disponibilizar álcool 70% em gel, dispensadores de sabão líquido e de papel-toalha descartável e lixeiras com tampa, sem acionamento manual

- Usar obrigatoriamente máscara em todas as áreas comuns, e só retirar durante as refeições

- Promover o escalonamento de entrada e saída dos alunos, de modo a não formar aglomeração, inclusive entre os pais

- Não permitir a saída simultânea de diferentes turmas

- Aferir a temperatura dos alunos e funcionários no acesso ao ambiente educacional

- Os bebedouros de uso direto não são recomendados. Devem ser disponibilizados copos descartáveis.

- Obedecer ao distanciamento de dois metros ou quatro metros quadrados por pessoa, evitando o uso do elevador

- Manter os ambientes arejados com as janelas e portas abertas e a limpeza dos aparelhos de ar-condicionado em dia

- Permitir retorno gradual às aulas presenciais

- Manter as atividades remotas para os alunos e professores que se enquadrem nos grupos de risco da COVID-19

- Restringir o uso de objetos que possam ser compartilhados pelos alunos (brinquedos, materiais educativos, materiais de artes, livros, colchonetes e outros)

- As salas de aula devem ser redimensionadas, de forma a se respeitar o distanciamento social mínimo de 2 metros ou 4m2/pessoa em todas as atividades educacionais presenciais.

Fonte: Gustavo Goulart / O Globo

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