Sabado, 18 de Julho de 2020 - 18:37 (Colaboradores)

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LIVRE

O mensageiro do Deus Vodu Haitiano na Amazônia Porto-Velhense

O Deus Hougan materializou-se na alma do povo haitiano, que rebelado contra o estado opressor, se organizavam no interior do Marronage, uma espécie de Quilombo brasileiro.


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Por Marquelino Santana

O Deus Hougan - espírito Vodu de Daomé, atual Benim africano - decidiu enviar emissários espíritas para o Haiti durante o século XVIII, para que a alma Vodu do povo Fon – Ewe, se encontrasse com os também anjos Vodu, que já haviam sido enviados por ele ainda no século XV.

Inicialmente, os anjos tinham a sagrada missão de aliviar a dor do seu povo, que foi desterritorializado e hostilizado nos porões dos navios negreiros para atender ao sistema escravocrata das américas, sob a reacionária determinação da Bula Papal Romanus Pontifex, assinada pelo papa Nicolau V em 1455.

O Deus Hougan materializou-se na alma do povo haitiano, que rebelado contra o estado opressor, se organizavam no interior do Marronage, uma espécie de Quilombo brasileiro. Hougan passou a escolher um líder para materializar-se e conduzir o seu povo pela força espiritual Vodu, independente das suas origens, como foi o caso de Makandal, originário da Guiné, e Dutty Boukman, que fortaleceu o seu povo à base de sangue de porco.

Missão cumprida. Mas o Deus Vodu queria muito mais. Em pleno século XXI, ele solicitou aos anjos Vodu que escolhesse um Lwa (espírito) para guiar um haitiano da Península de Tiburon até o Município de Porto Velho na Amazônia brasileira. Hougan sabia que o Haiti seria abalado por catástrofes naturais e que parte do seu povo migraria para o Brasil.

O princípio triunfante desta fé, deveria se iniciar às margens do rio Madeira, se estendendo ao longo do espaço onde foi construído a estrada de ferro Madeira – Mamoré para que “o mensageiro” fosse possuído pelas almas haitianas dessa misteriosa estrada de sangue.

Mas seria necessário lapida-lo no espaço e tempo. “O mensageiro”, inicialmente viveu três anos na capital e retornou ao seu povo sem plantar a semente sagrada do Vodu no lugar divinizado. Hougan mais uma vez entra em ação e age para que “o mensageiro” desistisse da fé europeizada e convencesse a mãe Dénizé Fortune a retornar ao Brasil. Os desejos do Deus Hougan foram divinamente realizados, e “o mensageiro” pisou novamente no chão porto-velhense.

Lwa, o espírito guia, conduz “o mensageiro” a entrelaçar-se em ações comunitárias junto com o seu povo e a ingressar numa nova rotina de estudos. Mas para isso seria necessário que “o mensageiro” também fosse acompanhado de um sábio orientador que conseguisse fazer com que ele percebesse a relevância do seu papel como um ser dotado de uma grande força espiritual que fosse capaz de construir o bem viver no coração da comunidade haitiana em Porto Velho.

E assim, Lwa, o espírito guia, conseguiu apresentar o sábio orientador ao mensageiro: Era Jozye (Josué). De fato, Jozye conseguiu fazer com que “o mensageiro” escrevesse uma original dissertação de mestrado em geografia que fosse aprovada com Louvor pela banca examinadora da Universidade Federal de Rondônia. A dissertação intitulada “O haitiano e a procura do lugar na diáspora para a Amazônia: língua, religião e representações” é uma obra prima do mensageirohaitiano Charlot JN Charles.

Só nos resta agora esperar para saber quais serão os misteriosos passos à serem anunciados pelo Deus Hougan. Até agora nem o espírito Lwa sabe.

Marquelino Santana é doutor em geografia e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir.

Fonte: News Rondônia

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