MARIETA - POR ALERTO AYALA

Os homens traem para manter a posição perante os amigos e inimigos. As mulheres traem por uma nobre questão. Qual? Manter a juventude. Ah! Manter a juventude.
Terça-Feira, 30 de Julho de 2019 - 10:50

Por Alberto Ayala
Rio de janeiro, 25 de março de 1975

O mar estava calmo naquela manhã de sábado. O vento fraco, gelado, balançava os belos cabelos de Marieta que observava a natureza extremamente reflexiva. Assim estava toda ela: reflexiva. Sentia-se sem muitos recursos para livrar-se da complicação existencial que lhe tomava. O amante, um rapaz de dezenove anos e o esposo um homem maduro de cinquenta e três anos. Meu Deus! Bebeu e fumou para tentar pensar melhor. Não deu para pensar muito. Rasgou alguns poemas que escrevera há dias. Poemas que exaltavam o amor. Mas ela não sabia amar. Como falar dele, do amor? Não podia ser hipócrita. Mas ela já era e sabia disso e isso lhe deixava triste. Eu não sou perfeita, Gabriela. Sou uma mulher que não leva em consideração a moral e os bons costumes. Quem sou eu? Nada. Um nada. Uma poetisa sem valor interior apesar de ser aclamada por tantos críticos pervertidos. No fundo só os pervertidos entendem outros pervertidos. Querida, ninguém é o que aparenta ser. Tanta experiência na vida e parece que não sabe disso. Por favor, Marieta! Não seja infantil. Ou não se faça. Você é uma mulher que ainda sente vontade de viver aventuras. E as aventuras são boas. Não seja tão má. Gabriela, ele é um menino praticamente. Não. Não é, Marieta. Ele já é um homem. Ele sabe te dar prazer. Então ele já é um homem. Não seja tola. Pode ser jovem, mas os jovens pensam. Nem todos são insanos. Acredite nisso. E o seu esposo também não é um grande exemplo para a sociedade brasileira. E nunca será. Temos que encarar a realidade. Já contou quantas vezes ele te traiu? Muitas, Gabriela. Então? Ele é homem e os outros homens sabem que ele, o seu esposo, não é um homossexual no armário. Trair é uma questão de manter a moral perante os outros homens. E por que a mulher não pode fazer o mesmo? O mundo é machista. E nunca deixará de ser, Gabriela. Mas a melhor parte da história é que os homens sabem que sem as mulheres eles não serão completos. É uma verdade. Não há como escapar da verdade. Ela é imutável. E graças a Deus por isso! Não concorda comigo? Sim. De certa forma sim. Os homens traem para manter a posição perante os amigos e inimigos. As mulheres traem por uma nobre questão. Qual? Manter a juventude. Ah! Manter a juventude.

Ligou o rádio e a música em espanhol mexia com o coração dela. Sim. Mexia. Logo com ela que parecia não ter coração. Mas ela tinha sim. Tirou o vestido e ficou nua na frente dele, de Mateus, um jovem de dezenove anos, virgem, amante da literatura, poeta de versos eróticos. Ele sorriu contente de saber que uma bela mulher queria ter sexo com ele.

Antes mesmo de ser beijado por Marieta, fechou os olhos e ejaculou com prazer. Marieta o beijou com vontade e tirou a virgindade dele. Adorou ser a professora de um aluno tão aplicado na cama. Meu Deus! Ela amava a vida perigosa. Dizia para o rapaz coisas lindas, mas nem tudo o que falava era verdade. Mas ela sentia a necessidade de iludir ele. Por que não? Mateus gostava, atendia todos os pedidos dela, idolatrava Marieta.

Imperfeita

Sou um exemplo de imperfeição. Não sou uma mulher que ache que somente as virtudes podem ser admiradas. Não. Nem quando eu era jovem pensava assim. Os perfeitos não são originais. Mas os imperfeitos sim. Eles são fascinantes. São excelentes atores na vida. E nós mesmos de forma inconsciente veneramos os maus. Preferimos o vilão do que o protagonista sem graça. Eis uma verdade que é muito forte. Quase uma lei. O que é errado atrai mais. O que é perfeito até que encanta, mas cansa.

Marieta Castro, 1975

Terminou de escrever a sua pequena e impactante reflexão e foi ao jardim sentir o ar fresco da manhã. Encontrou o esposo e a neta conversando perto de uma árvore linda. Olhou para a cena e não conteve a sua exaustão. Cruzou os braços e os observou por um breve instante.

Me dê um revólver e eu matarei o homem mais bondoso do planeta. Por favor! Será um favor para o mundo. Não sei o porquê de tanta inquietação, Marieta. O seu esposo é um homem tão gentil. E bonito. Desculpa! Mas eu acho. Não precisa se desculpar. Achar um homem bonito é um direito de todas as mulheres. Mas se quiser ele, poder seduzir o Onofre. Aposto que você não suportaria as conversas chatas daquele intelectual sem sal. Isso que você fala é verdade? Claro! Pode levar ele para a cama, querida. Talvez com você ele aprenda alguns truques sexuais que façam bons efeitos naquela hora. Ele não aprendeu nada com você, Marieta? Querida, eu sou demais para ele. Ainda não percebeu isso? Desculpa, Marieta! Nada. Não guardo mágoas. Me deixa feia e envelhece. Mas pode ficar com ele. É até uma caridade. Ele não presta osuficiente.

Sentou-se na beira da cama e fumou, fumou, fumou pensando demais nas suas ações erradas ao longo dos últimos anos. Respirou fundo. No olhar, mil indagações de alguém que sabia muito, mas que mesmo assim achava-se num deserto. Precisava de ajuda e ao mesmo tempo não precisava. Tinha sede, mas ao mesmo momento não tinha.

Em casa, sozinha, escrevia algumas cartas para o seu amante. Cartas repletas de palavras sedutoras, apaixonadas, de uma mulher que implorava o prazer sem pensar nas futuras consequências. Bebia e voltava a escrever com bastante vontade e desejo de logo encontrar Mateus. Ele já escrevia profissionalmente, mas não tinha um amplo reconhecimento literário. Era um poeta simples. Com a ajuda de Marieta, o poeta publicara o seu primeiro livro com uma tiragem medíocre. Mas pelo menos ele publicara algo. Também bebia e fumava. E era ateu. Um verdadeiro ateu.

Nas ruas calmas da pequena cidade, Marieta e Gabriela caminhavam devagar. Gabriela vivia uma vida de aparências. O marido, famoso político, escondia a sua verdadeira sexualidade de todos. Mas a mulher dele e a sua família já sabiam de toda a verdade. Então, Gabriela tinha os seus amantes. Era um forma de ter um consolo. Mas gostava do marido. Ele era uma boa pessoa. E é claro que Marieta e ela combinavam. Eram péssimos exemplos. Mas eram divertidas e elegantes. Despertavam a inveja das feias.

Todos os sábados, Marieta visitava a mãe, dona Leonor, uma conservada idosa de setenta e cinco anos que adorava ser admirada pelas pessoas, principalmente pelos homens. Leonor vivia perfumada, arrumada e sorrindo para manter-se sempre digna de admiração. Mãe, que bom ver a senhora assim! Assim como? Bem. Sorrindo. Bela. Parece que recebeu uma boa notícia. Não. Não recebi nenhuma boa notícia. Mas eu estou feliz por estar viva. É um presente poder viver. Você não acha? Acho sim. É claro que é, mãe! E o seu esposo, filha? Como sempre. Sem graça, mãe. Não fale assim dele. Vai defender ele de novo, mãe? Vou. Ele é um homem de caráter. Um homem bom. Lá vem a senhora com os argumentos mais ridículos do mundo. Não são ridículos, Marieta. Você não valoriza o homem que te ama. Será que ele me ama mesmo? Ama sim. Ele já me traiu, mãe. Me traiu várias vezes. Isso é amor? O seu pai também já me traiu várias vezes e eu não desprezei a presença dele. Fiquei com o Ernesto até  a morte dele. Eu fui um exemplo. A senhora acha isso um exemplo? Acho, filha! Nós estamos no século XXI. Tudo mudou mãe. A educação moral permanece, Marieta. Ninguém liga para isso, dona Leonor. E pelo visto nem você, Marieta. Por que a senhora está falando isso? Ficou com medo? Eu não tenho medo de ninguém. Mas fiquei surpresa pela ousadia das suas palavras. Alguém falou algo de mim? Não. Eu vi. E o que a senhora viu? Posso falar mesmo, Marieta? Pode. Estou esperando. Você e o seu amante. Juntos. Você e um moço aos beijos em um restaurante lá em SãoPaulo.

A filha, sem nenhuma vergonha caiu numa risada irônica. Dona Leonor a olhou com pena. Muita, muita pena.

Filha, um rapaz. Um rapaz, filha. Um homem, mãe. Um homem de verdade. Que me deu prazer. Que me dá prazer. Eu queria sentir prazer. Me faltava um homem de verdade. E o Onofre não é homem de verdade? Ele é um fraco. Um fraco na cama. Eu não gosto do modo como ele faz sexo comigo. Eu detesto o beijo dele. Detesto ouvir ele falar de política perto de mim. Detesto aquele homem. Na verdade, aquele rato. Meu Deus, filha! Não fala isso. Eu falo. Repito. Rato, rato, rato. Uma maldição na minha vida. Eu não sinto atração por ele. Detesto, detesto o Onofre com todas as minhas forças. Eu queria ver ele morto. Seria maravilhoso. Aí eu ficaria livre para viver ao lado do meu amante. Livre efeliz.

No quarto, eles transavam. A tarde estava bonita. Mateus e Gabriela beijavam-se intensamente na cama, nus, suados, eufóricos. E Marieta fumava no jardim da sua casa. Usava um longo vestido verde com rendas delicadas, os belos cabelos loiros, um elegante colar no seu sedutor pescoço moreno. E você não quer mais escrever poemas românticos? Não. Agora eu estou numa nova fase da minha vida. Vou escrever poemas que falam a verdade da vida. A dura verdade da vida. Do homem que é repleto de imperfeições. Então, pode-se dizer que você amadureceu como poetisa? Sim. Não só como poetisa. Como mulher também.

Abriu uma caixa mimosa e dentro dela várias fotos. Fotos de Marieta ao lado de Onofre. Será que a paixão vale mais que o amor? Um dia eu ouvi que vale. Quem disse isso foi um renomado romancista francês. Mas ele não era um homem feliz. Dava para perceber no olhar dele. Mas e você? Eu acredito que a paixão é excitante sim. Não vou mentir. Mas o amor é um sentimento superior. Muito superior. Você prefere o amante ou o esposo fiel? Eles não foram leais comigo. Nenhum. Eu não quero mais o Mateus. Nem quero ser a mulher do Onofre. Chega! Eu não quero mais saber de casamento. Por favor! Casamento não. Pietro, eu preciso fumar. Você pega um cigarro para a sua amiga? Por favor,querido!

Rio de Janeiro, 15 de abril de 1976

Deixou o livro em cima da mesa. Tomou um gole de café. Deixou a xícara ao lado da máquina de escrever. Acendeu o cigarro. Foi fumar em paz. Foi olhar o mar. Sentir o ar da manhã. Ver as árvores. Contemplar a natureza. Contemplar o silêncio. Ele, em passos lentos, desceu os degraus da escada. Segurava na mão direita um revólver. Guardava muita mágoa no coração. Parecia um pouco embriagado. Queria a vingança. Somente a vingança. Tão justa para ele. Queria ver sangue. O sangue de Marieta.

Dona Leonor, entrou no carro de Gabriela. Olhou a mulher do político com um terrível desprezo. Fala logo que eu não tenho tempo para perder com qualquer pessoa. Muita arrogância da sua parte, cadela. A senhora quer levar uma bofetada bem ardida? Experimenta, vadia. Só experimenta. Eu mando te matar. Eu tenho mais dinheiro, velha infernal. Mas eu tenho bons amigos. Amigos que podem acabar com a sua vida, com a vida do seu maridinho e do seu filho. Experimenta, cadela. Eu não brinco no serviço. Posso até ser velha, mas eu não morri. Por que me chamou pelotelefone? Ficou com medo?C uriosa.Você vai salvar a minha filha.

Eu? É. E não se faça de boba, Gabriela. Você não é boba. Por que eu tenho que salvar a sua filha? Porque você colocou ela em perigo. A Marieta não é uma santa, dona Leonor. Mas você contratou um assassino para acabar com a vida da minha filha, cadela. Para de me xingar. Não, vagabunda. Não, safada. Você não merece o meu respeito. Sai do meu carro, velha atrevida! Eu espero que você tenha consciência das suas palavras. Eu também contratei um assassino para atirar no seu filho. Mentira. Ele está fora do país. Na Colômbia. Sim, Gabriela. Exatamente. Na Colômbia. Eu conheço tantas pessoas na Colômbia. Mentira. Você está querendo me assustar, velha maldita. Não acredita? Você é teimosa! A Bruna é mais obediente que você. Apesar de ser mais bonita e educada. Ah! E ela ainda sabe falar espanhol. A Bruna e o seu filho estão hospedados na casa da dona Thalía. Não é verdade? Maldita! Maldita! Maldita é você, Gabriela. Maldita e otária. Otária.

Sentou-se rente ao seu grande amor. Fitou a máquina de escrever. Um papel em branco pode ser melhor que um cigarro? Claro que pode! Não sei se Clarice Lispector responderia a mesma coisa que eu, mas...

Escreveu, escreveu, escreveu. Escreveu um belo poema, mesmo que fosse o último. O último poema romântico de uma poetisa que buscava não ser tão emotiva nos seus versos. Queria chocar. Burlar as regras da literatura. Assim seria original e ganharia prêmios importantes.

A tarde

A tarde está calma, bela, um pouco nublada E nós estamos aqui

Sozinhos Nos amando

Que gozo intenso

Estar ao teu lado renova-me Acalma-me

Transforma-me


Deixa-me mais animado Nossos corpos encontraram-se

Que bom admirar teu sorriso Angelical, único

E gosto de beijar teus lábios Eles são meus, querida Todo o teu corpo é meu

Que tarde agradável Que tempo tão nosso

Eu quero é ficar agarrado contigo Beijar-te

Amar-te como mulher

Marieta acabou de ler o seu poema. Enxugou as lágrimas com extrema elegância. Silêncio. Atrás dela, Mateus e o seu revólver apontado na direção da cabeça de Marieta.

Não me mata, querido. Eu fiz este poema para você. Não me mata.

Sem piedade, o jovem apertou o gatilho e nada, nada. Nada.

Com agilidade, Marieta virou-se segurando um revólver e atirou no estômago dele. Mateus arregalou os seus olhos. E os dois encararam-se. Ela levantou-se da cadeira, deixou o revólver na mesa. Ficou olhando o poeta gemer ensanguentado no tapete. Eu troquei o revólver, querido. Desculpa! Mas eu precisava fazer isso. Desculpa! Você foi um excelente amante, mas errou comigo. Eu não tive outra escolha. Pode ir em paz. Adeus, meu bem!

O jovem fechou os olhos devagar, devagar, devagar. Marieta ficou de cócoras e o viu morrer. Abaixou os olhos por alguns segundos, mas depois os ergueu com absoluta altivez.

Fonte - Alberto Ayala

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