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E O POVO... - POR AMADEU MACHADO

Com enorme facilidade os políticos se insurgem contra a escorchante carga tributária, como forma de se demonstrarem sensíveis ao arrocho que todos sofrem.
Segunda-Feira, 15 de Outubro de 2018 - 23:10

Por Amadeu Machado

Em debates que ocorreram ao longo do primeiro turno das eleições, em algumas oportunidades vi e ouvi o então candidato Maurão de Carvalho estufar o peito para dizer que construiu o prédio (os prédios) da Assembleia Legislativa, onde gastou CEM MILHÕES DE REAIS, porque era dinheiro do orçamento dele. 

Disse e repetiu, tendo como um grande feito esta construção, assim como o fato de ter repassado alguns milhões para ações do Poder Executivo. Certamente sobras do que não conseguiu gastar.

O que me intriga é que, salvo ponderações feitas por um e outro candidato, este seria um tema a ser tratado com mais seriedade e com senso crítico por todos.

Como admitir que uma obra para abrigar 24 deputados, consumindo a estúpida quantia de CEM MILHÕES DE REAIS, possa ser tida como correta e fique imune à críticas.

Todos sabemos, inclusive os postulantes ao cargo de governador, que as carências da população nos itens básicos de saúde, segurança e educação, exigem rigor na aplicação do dinheiro que é arrecadado da população.

Com enorme facilidade os políticos se insurgem contra a escorchante carga tributária, como forma de se demonstrarem sensíveis ao arrocho que todos sofrem.

As alíquotas tributárias (percentuais incidentes sobre todos os produtos consumidos) são verdadeiras aberrações.

O quilo do arroz, do feijão, da carne, o litro do leite tem seu valor acrescido pela incidência de tributos federais numa ponta e tributos estaduais noutra, havendo, ainda custos adicionados ao preço por conta de exigências da fazenda municipal.

Combustíveis, telefonia e energia elétrica sofrem acréscimo de quase 50% na conta que chega ao consumidor.

A volúpia arrecadatória é tão grande que houve um governador que não queria fosse nosso Estado ligado ao sistema nacional de distribuição de energia elétrica, porque isto significaria desativar a usina da Termonorte, implicando em queda da arrecadação, posto que aquele complexo gerador é movido a óleo diesel e o Estado embolsava alguns milhões por mês em ICMs sobre combustíveis.

Pouco importa que a geração fosse caríssima e altamente poluente.

O que não daria para realizar com CEM MILHÕES DE REAIS? 

Colocar água tratada nas casas dos eleitores, implantar rede de saneamento coletora de esgotos, pois aqui não há absolutamente nada, com ressalva para o município de Cacoal, seria uma destinação correta para estes milhões que foram aplicados em uma suntuosa casa para 24 deputados.

É chocante olhar onde está o dinheiro que deveria reverter para quem paga os impostos.

De um lado da rua há um prédio que já chamou a atenção e era referência na cidade de Porto Velho, falo do Tribunal de Justiça.

Agora do outro lado erguem-se torres monumentais, com salões nobres e auditório, além de espraiarem-se construções horizontalizadas que fazem o edifício da Justiça ser um puxadinho.

Também corre à solta que esta faraônica obra enriqueceu muita gente, ao longo dos tantos anos que vem sendo edificada.

Ele, o contribuinte, não foi consultado e, se o fosse, teria aprovado que o recurso que deveria reverter em serviços para ele fosse desviado para uma construção suntuosa e desnecessária.

Mas, como visto, é cultural essa questão. O candidato se orgulhava em dizer que gastou CEM MILHÕES, mas que eram do orçamento dele. Só faltou dizer "o dinheiro é meu e gasto como eu quero".

Não é assim não. O dinheiro é do povo, justamente o povo carente, sofrido, para o qual o candidato fica prometendo que vai melhorar sua vida.

No entanto, quando as autoridades se reúnem para discutir a lei orçamentária, os Poderes avançam implacavelmente sobre a minguada receita gerada nas costas e nos bolsos dos cidadãos, porque, alegadamente, precisam de todo aquele dinheiro para se manterem e prestarem seus serviços.

Mas, se sabe, há enorme desperdício porque os gestores, em geral, usam dinheiro que não é deles e sim de um tal de erário.

A cidadania melhor informada reprova estas condutas, mas nada diz e tampouco faz, enquanto os pobres, famintos e desempregados sequer sabem sobre esta perversidade.

Veículos de comunicação não se manifestam, porque se assim o fizerem perderão as generosas faturas que apresentam mês a mês, tanto ao executivo como ao legislativo e que são religiosamente pagas, como forma de evitar que os mandatários possam ser criticados.

Há um pacto de silêncio e de desinformação, para que tudo continue igual.

Em todo o caso ainda resta agradecer ao candidato que abriu a boca e anunciou que o Legislativo tem sobra de recursos, tanto que pôde construir aquela luxuosa sede e distribuir benesses para outros órgãos públicos, o que não é sua função. 

Ficou aberta a possibilidade para uma sensível redução do milionário orçamento deste poder. Afinal de contas, além de não dever repassar dinheiro para outros órgãos, o que caracteriza desvio de finalidade, considere-se que a obra faraônica foi concluída.

O que faltou em hospitais, em estradas, em segurança, foi gasto em uma construção que não precisava ter tamanho aparato.

Para encerrar e demonstrar que a administração como um todo vilipendia o dinheiro do contribuinte, observe-se a frota de veículos públicos que circula pelas ruas de nossas cidades.

São caminhonetes e automóveis de luxo, pois, afinal de contas, as autoridades não podem se locomover em carrinhos populares, desconfortáveis e inexpressivos.

É parte da imposição de poder a ostentação. Todavia, são conceitos e critérios tão arraigados, que ninguém do povo atenta que aquela viatura foi comprada com dinheiro que foi tomado dele, via impostos arrecadados.

Sem dúvida que também nesse caso ocorre o desvio de finalidade.

O tanto que é compulsoriamente tomado do povo, ao invés de reverter em benefícios, especialmente para aqueles que mais precisam, se presta a conceder luxo, conforto e status ao servidor público. 

Claro, Governador, Deputado, Desembargador, Promotor, Conselheiro e outros menos votados, são todos servidores públicos, ou seja, estão ali para servir ao povo e não para se beneficiar e ostentar com o dinheiro dos outros.

E não vejo ninguém fazer este tipo de abordagem, posto que, como dito, estas extravagâncias estão fixadas no contexto como absolutamente normais.

Enquanto isto nas redes sociais impera o maniqueísmo do bom e do mau, do certo e do errado, do feio e do bonito. 

Os temas mais candentes são homofobia, racismo, misoginia, comunismo. Ninguém fala em gestão. Alguns acrescentam corrupção, roubalheira em suas indignadas postagens. 

Para tudo isto há uma Constituição e leis e, ao que me consta, bem ou mal, a Constituição e as leis estão sendo cumpridas, embora um certo espalhafato pelo ativismo judicial.

Que o brasileiro pobre permaneça desempregado, miserável, inculto. Inculto não, analfabeto mesmo, pois quanto maior a ignorância da massa, mais facilmente ela é manipulada pelas inconsistentes e inconsequentes promessas dos candidatos.

Sobre gerenciamento, aplicação honesta e eficaz do dinheiro público ninguém diz nada.

Melhor exemplo disso foi o candidato arrotar na cara de todos que gastou CEM MILHÕES DE REAIS para construir a sede do parlamento de Rondônia e não ter levado uma reprimenda.

Um deboche com as filas em hospitais, com a falta de medicamentos é dizer que não há dinheiro, estando a autoridade montada em um luxuoso veículo, com motorista à disposição e tanque sempre cheio, ou gastando CEM MILHÕES DE REAIS para levantar um prédio que abrigará 24 parlamentares, que lá chegaram pelo voto popular.

Alguém já viu carro de autoridade parado por falta de combustível. Esse não faltará jamais, porque na concepção dos gestores o carro de representação não pode parar, já com remédio e leito em hospitais a prática é outra.

É bem como dizia o Chico Anísio, através do personagem Justo Veríssimo, O POVO QUE SE EXPLODA.

Fonte - Amadeu Machado - NewsRondônia

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