Quarta-Feira, 06 de Dezembro de 2017 - 09:09 (Colaboradores)

L
LIVRE

ZÉ DENTINHO E DORALICE - UMA COMÉDIA BRASILEIRA

Não duvidava dela fazer o mesmo comigo. Que garantia eu tinha de que não seria o próximo? Nenhuma. Nenhuma gente que me lê.


Imprimir página

Capítulo 1

Quando eu era pequeno (e ainda sou), a maioria das pessoas falavam que teria dificuldade em arranjar uma mulher boa pra casar. Meu pai e minha saudosa mãe não pronunciavam palavras tão duras. Jamais! Acontece que a gente bota mais fé no pior, na desgraça, no Diabo (tô mentindo, pessoal?). E eu botava mais fé nas pessoas que viviam me colocando lá embaixo. Se fosse aceitar ser jogado no buraco cavado por essas criaturas (Deus tenha misericórdia delas), ia parar lá no Japão (e esse buraco seria uma cova pra mim, é claro!).

Tia Benedita amava me colocar abaixo do fundo do poço. E olha que ela nem esbanjava beleza (usava dentadura frouxa, aterrorizante! Perdera vários dentes numa aposta feita lá no garimpo).

- Garoto, cê é feio, hein! – afirmava-me a parente mais que insuportável.

- O mesmo lhe digo, assombração rural – provocava só de pirraça.

E saía disparado. Tia Benedita arrancara dois dedos de um bandido que tentara assaltar a sua casa (escrevo casa num ato de gentileza. Na verdade, o cantinho da tia é uma barraco repleto de baratas, ratos, teias de várias espécies de arranhas que andam por ali, entre outros insetos desagradáveis). Não duvidava dela fazer o mesmo comigo. Que garantia eu tinha de que não seria o próximo? Nenhuma. Nenhuma gente que me lê.

Na escola, beijei uma única garota.

- Quem quer beijar o Zé dentinho? – perguntava meu primo, Zé banana (fazia o interrogatório pelo menos quatro vezes ao dia)

Elas riam (as meninas). E eu? Eu ficava vermelho. Só faltava ter um ataque do coração. Certa madrugada, sonhei que acabava solteiro. Sem filhos, sem casa, sem emprego, sem nada de bom na vida.

Acordei assustado.

- Mãe! – gritei.

Veio o pai. A mãe roncava (mães também roncam, gente!). Indagou o motivo do grito. Preferi não mentir. Nunca gostei muito de mentira (já fiquei uma semana sem dormir depois que ouvi a história do Pinóquio!!!). Falei a verdade.

- Zé, não fica assim não.

- Assim como?

- Assim. Todo triste.

- Pai, eu sou feio?

- Depende como você se vê.

- Meu Deus!

- Por que a pergunta, filho?

- É porque dizem que eu sou feio.

- Já falaram que eu não era macho.

Ri. Seu Alberto também (ele é o meu pai!).

- Sonhei com coisa feia, pai.

- Sonhos são apenas sonhos!

- Verdade, pai?

- Verdade.

- Como foi seu sonho, filho?

- Terrível!

- Sonhou com a morte?

- Não.

- Conta teu sonho.

Contei. Meu pai (bom companheiro de horas chatas e bacanas) ouviu todos os detalhes do pesadelo (sonhar é diferente!). E dormiu. Acordei ele.

- Desculpa, filho. Não foi de propósito!

- Eu sei.

- O senhor vai falar alguma coisa pra mim?

- Vou. Esquece o sonho. Ora pro Papai do céu. E dorme.

Fiz o recomendado. E não é que deu certo. Dormi feito anjo.

Continua...

Fonte: Alberto Ayala /NewsRondônia

Noticias relacionadas

Comentários

Veja também

Outras notícias + mais notícias