Quinta-Feira, 23 de Novembro de 2017 - 23:32 (Colaboradores)

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LIVRE

UMA HISTÓRIA DE AMOR COM VILHENA

Resgatei mais de 50 fotos raras e histórias de JK em Vilhena. Fui buscá-las em São Paulo, onde estavam com um antigo funcionário da empresa Camargo Corrêa, responsável pela abertura da rodovia.


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Era novembro de 1998. Eu morava na cidade, havia apenas sete meses. Junto com os tarimbados jornalistas Newton Pandolpho e Mario Quevedo, então meus colegas do tabloide "Folha do Sul", decidimos produzir um suplemento que denominaríamos "Documento Vilhena 21 Anos". 

De pronto, o editor do jornal, Dimas Ferreira, acatou a ideia. E lá fomos nós para o trabalho de campo. Foi uma viagem e tanto ao passado. Descobrimos a primeira pessoa não-índia nascida onde é o núcleo urbano de Vilhena, Regina Fontinelli, uma descendente de cearenses, que em 1960 trabalhavam no canteiro de obras em torno da BR-029 (atual 364). Antes dela, as únicas pessoas nascidas na região eram da família Zonoecê (que cuidava da Casa de Rondon) e filhos de seringueiros distantes da atual zona urbana. Todos os demais eram povos indígenas aldeados ou nômades, sobre os quais eram/são poucos os registros. 

Fazendo aquele jornal, há 19 anos, eu e meus companheiros de redação tivemos a oportunidade de remexer o baú de Vilhena, com rememorações que passaram por muitos pioneiros ouvidos para as matérias. Foi um trabalho sensacional, embora modesto, que me fez tomar gosto pela história local com nuances sobre a economia, a ocupação demográfica e as curiosidades do cotidiano. 

Depois da "Folha", veio, em 2000, o livro "Vilhena conta sua história", de Pedro Brasil. Trabalhei  diretamente no projeto, editando os textos e procurando dar uma forma o menos chapa-branca possível à obra, com acabamento gráfico quase precário. O interessante é que o livro aconteceu no calor do momento em que muitos personagens ainda estavam vivos e puderam apresentar suas vivências e versões da história. 

Em quase duas décadas, escrevi  e tenho muito material inédito sobre inúmeros episódios, personagens e, ouso dizer, algumas "descobertas" importantes publicadas na imprensa e no livro autoral "Caminhos de Rondon", que apresenta  passagens ocorridas em Vilhena. Fiz conexões das viagens de sertanistas e cientistas - a exemplo de Major Amarante e Lévi-Strauss - com identidade de Vilhena, bem como mantive viva a memória de personagens imprescindíveis como Marciano Zonoecê (ousei tentar construir até uma escola com seu nome e abri o ano letivo de 2012, quando eu era secretário de Educação, fazendo referência ao pioneiro dos pioneiros para compreensão da "vilhenidade") e Juscelino Kubitscheck. Ao último, dediquei, em 2010, a exposição de fotos pelos 50 anos de abertura da 364 e a passagem do presidente por Vilhena. A rodovia aberta por JK permitiu a afetiva consolidação da integração nacional do "outro braço da cruz" ao restante do Brasil, tarefa essa iniciada no início do século XX, pela Comissão Rondon, com suas picadas (estradas primitivas) e o telégrafo.

Resgatei mais de 50 fotos raras e histórias de JK em Vilhena. Fui buscá-las em São Paulo, onde estavam com um antigo funcionário da empresa Camargo Corrêa, responsável pela abertura da rodovia. Infelizmente, as imagens me foram furtadas. Acreditem! Mostravam cenas triviais dos primeiros dias da nascente Vilhena, a partir da construção da BR. Mas, ainda ficaram algumas cópias e materiais deste período que, um dia, pretendo expor à visitação pública. 

A colonização começou pelos seringueiros que se instalaram na região. Aliás, moradores dos seringais são vistos em fotos de 1910, dançando em comemoração à inauguração do telégrafo. Entende-se, simbolicamente, como marco-zero da cidade a implantação do Posto Telegráfico Álvaro Vilhena, que inclusive, deu origem ao nome da cidade. A homenagem foi ao engenheiro maranhense Álvaro de Mello Coutinho Vilhena, ex-diretor do ECT, que morreu já aposentado, pobre e com câncer, em Juiz de Fora (MG). 

Em 2010, na tentativa de manter viva a memória do início da cidade, instituí o prêmio  "Casa de Rondon", homenageando uma série de personalidades da imprensa. E desde sempre, luto com o monstro da burocracia para tentar reativar o museu, que um dia existiu no posto telegráfico. O problema nunca foi falta de "boa intenção" e nem mesmo de disponibilidade financeira, mas, sim, o fato de a casa estar em uma área militar e só ter sido tombada pelo Iphan em 2015, criando um lastro documental necessário à preservação do espaço. Não desistimos e nem iremos. A burocracia não irá nos vencer.

Além desta questão do museu, recentemente  a equipe da Setur (Superintendência Estadual de Turismo) gravou, atendendo ao nosso pedido, uma série de entrevistas audiovisuais para o Museu de Gente de Rondônia, constando depoimentos de personalidades vilhenenses, que contribuíram diretamente com a formação da cidade, sobretudo, na fase em que Vilhena passou a distrito de Porto Velho, na década de 1970, e sua emancipação político-administrativa em 1977. 

Mas, muito antes da emancipação, a vida pulsava em histórias formidáveis, que passaram por Sargento Aymoré, Bonifácio Almodóvar, Sabino Bezerra de Queiroz, Alfredo Fontinelli, Noeme de Barros, Manoel Régis, Paulinho da Andorinha, Gilberto Barros, Renato Coutinho, Compadre Osvaldinho, padre Ângelo Spadari, Edwirges Duarte... meu Deus, cometo um erro ao citar nomes, pois, foram muitos os iniciadores e responsáveis pela existência de Vilhena. A todos - os citados ou não -, minhas homenagens! 

O fato é que, aqui, apenas, passeio pela minha própria memória, sem respaldos em documentos e menções bibliográficas; uma homenagem sincera, emocionada, pela linda Vilhena, que conheci do alto da minha juventude, presenciando o último fôlego do Beron na avenida Major Amarante, da energia elétrica, que ainda era, em parte, mantida pelos motores da Ceron, com o fornecimento suspenso todos os dias, em alguma área da cidade; presenciei vias centrais como a Liberdade e a XV de Novembro, sem asfalto; um tempo em que a cidade "bombava" na política, com os showmícios que levavam milhares de pessoas ao largo, onde, hoje fica o Shopping Pato Branco; vi a cidade tornar-se a mais urbanizada do estado, rica, com arquitetura ousada; lembro que meia dúzia de usuários tinha celular (o prefixo era 995) e internet... Da cidade, de quando cheguei, com seus 40 mil habitantes, até a Vilhena de hoje, com uma população de quase 100 mil, muita coisa aconteceu e o que vejo é que a nossa urbe amada é dona de si, orgulhosa e arguta da sua condição de Canaã, a terra prometida de todos os que se orgulham de ser vilhenenses, seja por nascimento ou adoção. Viva Vilhena! 

Fonte: Júlio Olivar/NewsRondônia

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