Quarta-Feira, 22 de Novembro de 2017 - 09:42 (Colaboradores)

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A DECISÃO - CAPÍTULO 1

Seu Mário desceu do carro cantando um samba de Paulinho da Viola. O táxi se foi. Ele e a filha olharam-se.


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Por Alberto Ayala

Rua deserta. Noite quente, estrelada. Terça-feira.

Letícia estava em pé, de braços cruzados, na calçada, esperando o pai chegar do bar. Ficou assim alguns minutos. Um táxi se aproximou da mulher. Ela já sabia quem iria sair daquele automóvel.                                                         

Seu Mário desceu do carro cantando um samba de Paulinho da Viola. O táxi se foi. Ele e a filha olharam-se.           

- Bênção, pai.

- Bênção, filha. Bênçãos multiplicadas pro mundo!

- Como foi a sua noite, pai?

- Ótima e curta demais!

- Gostou?

- Sim. Muita bebida e mulher boa por aí!

Os dois entraram na casa. Seu Mário se jogou logo no sófa. A filha sentou na poltrona. Silêncio efêmero.

- Pai, o senhor tá louco?

- Louco? Eu? Por que eu tô louco?

- O senhor não pode mais beber como antes, pai. Acabou a fase do exagero. Acabou, pai. Tá me ouvindo?

O idoso gargalhou alto. Letícia respirou fundo. Era necessário enorme paciência.

- Você tá parecendo velha. Tá querendo me controlar, é?

- Pro teu próprio bem, pai.

- Vai controlar o teu marido. Ele é que tá aprontando. Não eu. Hoje eu virei santinho, filha. Ele tá é com outra. Letícia, fica esperta.

A mulher levantou da poltrona impaciente.

- Por que o senhor gosta de me humilhar?

- Porque eu digo a verdade.

- Mentira. O senhor adora me provocar. Só pra me colocar lá no fundo do poço. O teu prazer é me pisar, me esmagar sem alguma piedade, pai. Tô enganada, hein?

- Tá doida, Letícia.

- A mamãe sofreu muito com o senhor. E o senhor tá aí. Só dando uma de bacana. Querendo ser o eterno garotão.

- Cala a tua boca, Letícia.

O idoso se ergeu do sófa.

- Cala a tua boca.

- Vai me bater, é? Vai me bater, seu Mário?

- Passou o tempo.

- Passou mesmo. E o senhor continua na tua ignorância. Infelizmente.

- Eu quero ouvir o meu samba tranquilo, Letícia. Vá embora. Eu te peço.

- O senhor é frio!

- Frio?

- Frio. A gente nunca se deu muito bem. A gente até tentou alguma aproximação. Até que deu certo um pouco. Só um pouco.

- A Eva é que deveria ser minha filha. Ela é um anjo!

- A minha mãe me amava.

- Vá embora, Letícia.

- O senhor tá me expulsando?

- Tô. Eu quero dormir sozinho. Tô nem ligando pro ladrão.

Letícia abaixou os olhos. Sentiu uma angústia intensa no peito. As lágrimas rolaram pelo seu rosto branco e delicado.

- É difícil ouvir isso, pai. É muito difícil.

- Adeus!

No dia seguinte, a professora foi visitar uma amiga que chegara da Europa. Emília trabalhava como fotógrafa.

- E você está bem, Emília?

- Bem. E você?

-  Levando.

A fotógrafa cruzou suas pernas de modo discreto.

- Como?

- Tendo tolerância.

- É o seu pai, querida?

- É.

- Complicado.

- Tudo dará certo, Emília.

- Não fica triste, Letícia.

A professora deu uma leve risada.

- Prometo que vou tentar.

- Tente.

- Emília, você teve bons resultados na Europa?

- Graças a Deus! Os resultados foram maravilhosos.

- Legal!

- Pena que tudo aconteceu rápido.

- O importante é que você atingiu parte do seu objetivo.

- É. Lá eu lembrei de como eu desejava a oportunidade de expor no exterior. Lá a arte é muito mais valorizada.

- Mais sucesso, Emília.

- Recebo.

As duas riram.

- Mas é preciso força, fé. Sem fé a gente não chega em nenhum lugar.

- Concordo.

- E o teu marido, Letícia?

- O Augusto é outro.

- Você está no meio de uma tempestade, Letícia.

- Pior. De um furacão.

Escritório. Tarde. Quarta-feira.

Augusto fechou o romance Senhora, de José de Alencar. Respirou fundo. Espreguiçou-se. Abriu um sorriso de repente.

O telefone tocou. Augusto revirou os olhos. Não atendeu a ligação.

Levantou. Saiu.

Entrou no carro. Ligou o rádio. Dirigiu cantando funk. Estacionou na frente de uma casa bonita. Valéria caminhou na direção do automóvel. O advogado desceu do veículo.

- E aí, amor?

- Nem dormi pensando no nosso encontro.

- Tá cheirosa!

Deu um beijo na garota de programa.

- Vamos pro motel, gata?

Valéria riu. Agarrou o homem.

 

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Fonte: Alberto Ayala /NewsRondônia

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