Terça-Feira, 29 de Junho de 2021 - 09:17 (Geral)

L
LIVRE

Caso Henry: Jairinho anexou fotos com Carlos Bolsonaro e presidente da Câmara em alegações finais contra cassação

Iniciativa não foi bem digerida por alguns dos parlamentares do Conselho de Ética. Entre as11 imagens anexadas, há também fotografia com Henry Borel e Monique Medeiros


Imprimir página

Uma das estratégias escolhidas pela defesa do vereador Dr. Jairinho (sem partido) em suas alegações finais para tentar convencer a Comissão de Ética da Câmara a não levar sua cassação a plenário, além do foco num perfil definido no documento como "caridoso e carismático que formou uma legião de amigos e admiradores na Casa", foi a anexação de fotos onde, em algumas delas, o parlamentar aparece ao lado de outras figuras políticas. Numa das imagens anexadas, Jairinho aparece ao lado do presidente da Câmara, vereador Carlo Caiado (DEM), e do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente Jair Bolsonaro, em plenário. A iniciativa não foi bem digerida por alguns dos componentes da Comissão, que enxergaram, sobretudo, como uma tentativa de intimidação.

Ao todo, são onze fotos anexadas ao documento ao qual O GLOBO teve acesso. Algumas repetidas, como uma em que Jairinho aparece falando em plenário, com Cesar Maia (DEM) ao fundo. Numa outra peça anexada, o vereador aparece mais uma vez ao lado de Caiado, presidente da Casa. A defesa do vereador também utilizou uma foto de Jairinho com Henry Borel e Monique Medeiros e outras de momentos de confraternização, como uma em que ele posa num evento ao lado de crianças e uma pessoa fantasiada de coelho.

— Eles apresentaram um alentado documento, com muita prosopopéia, 38 páginas, sete dedicadas à vida pessoal e política do vereador, o que não está em questão — comentou o vereador Chico Alencar (PSOL) nesta segunda-feira, com o texto em mãos.

A vereadora Teresa Bergher (Cidadania), por sua vez, ironizou o uso das fotos no documento por parte da defesa.

— O objetivo foi mostrar o bom relacionamento dele com os políticos, o quanto era querido por muitos vereadores... O seu arquivo fotográfico é vasto, incluiu quase todos os vereadores, de direita, centro e esquerda. Do baixo clero ao mais alto cacique — disse a vereadora em tom de ironia.

Questionado, o presidente da Comissão, vereador Alexandre Isquierdo (DEM), que votou pela cassação de Jairinho, disse não ter visto a apresentação das fotos como uma forma de tentativa de intimidação. Para ele, a defesa quis “sensibilizar” os parlamentares.

— Eu acho que a tentativa da defesa em apresentar essas fotos do Jairinho em diversas situações aqui na Câmara, momentos até de confraternização, foi de sensibilizar, mas não de intimidar. De fato, o Dr. Jairinho, até então, foi uma pessoa muito cordial, amiga e com bom trato com todas as pessoas aqui nessa Casa – analisou.

Cassação será votada na quarta-feira

Após reunião fechada que durou cerca de 1 hora, no fim da manhã desta segunda-feira, os sete vereadores que compõem a Comissão de Ética da Câmara decidiram, por unanimidade, levar ao plenário a votação sobre a cassação do vereador Dr. Jairinho, que está preso, acusado de participação na morte do enteado, Henry Borel, de apenas 4 anos, em março deste ano. No entendimento dos parlamentares, houve quebra de decoro parlamentar quando Jairinho, utilizando-se de sua influência política, buscou contato com um profissional da Rede D'or para tentar fazer com que o corpo de Henry não fosse levado diretamente para o Instituto Médico-Legal (IML) na noite em que o garoto morreu.

Agora, a Câmara decidirá em votação, na quarta-feira (30), se Jairinho terá o cargo cassado ou não. Para que isso aconteça, é preciso que dois terços dos vereadores sejam favoráveis à medida (34 votos). A tendência é de que a Casa decida de forma unânime pela perda do cargo. O vereador já teve salário, gabinete e demais direitos políticos do cargo suspensos pela Casa.

Antes, a Comissão de Ética era presidida pelo próprio Dr. Jairinho. Agora, é composta por Alexandre Isquierdo (presidente), Rosa Fernandes (vice-presidente), Dr. Rogério Amorim (secretário), Chico Alencar (PSOL), Zico (Republicanos), Teresa Bergher (Cidadania) e Luiz Ramos Filho (PMN).

— Olha as voltas que o destino dá: o relator entra como substituto de ninguém menos do que o Dr. Jairo… doutor não, Jairo Souza Júnior, que era o titular do Conselho de Ética.

O caso Henry

Jairinho e a namorada, Monique Medeiros da Costa e Silva de Almeida, estão presos desde 8 de abril. O documento afirma que a acusação de quebra de decoro parlamentar está embasada nas "robustas evidências de envolvimento" de Jairinho "no crime que vitimou o menor", nos depoimentos de testemunhas e dos envolvidos ao delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), na perícia técnica e na conclusão do inquérito.

"Não restam dúvidas de que Henry foi vítima de homicídio duplamente qualificado, por emprego de tortura e meio que impossibilitou a defesa da vítima, quando estava apenas na companhia de Monique e Jairo. Também não restam dúvidas que Jairinho agredia Henry. A própria extensão das lesões, em sua gravidade e quantidade, demonstra ação brutal contra a criança, culminando com a morte dela, antes da chegada ao hospital", diz o trecho do inquérito policial, reproduzido no relatório.

No último dia 25, a defesa do vereador encaminhou ao conselho o relatório que pede a sua absolvição no processo que pode levar à cassação do mandato. Em 38 páginas, os advogados do parlamentar argumentam que Jairinho sempre foi um "pai carinhoso, presente, amado pelos filhos, quiçá por Henry. Além de ser uma pessoa que conquistou uma legião de amigos e admiradores na Câmara". O documento ressalta que Jairinho não teve espaço para o contraditório e afirma que o vereador é vítima de "uma farsa". Nos bastidores da Câmara, as chances de Jairinho escapar da cassação são consideradas nulas.

Durante as investigações sobre a morte de Henry, também tiveram início apurações sobre agressões que o vereador teria praticado contra filhos — ainda crianças — de outras ex-namoradas. Em um dos casos, Jairinho foi indiciado, no último dia 1º, por torturar o filho de uma ex-namorada, um menino de 3 anos à época, que teve o fêmur quebrado em uma das sessões de violência. A mãe do menino, Debora Mello Saraiva, também teria sofrido agressão, o que se desdobrou no indiciamento pelo crime de lesão corporal no âmbito da violência doméstica praticada contra a mulher. As investigações da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV) concluíram que o parlamentar agrediu a estudante em pelo menos quatro ocasiões.

Fonte: 20 - Arthur Leal

Noticias relacionadas

Comentários

Veja também

Outras notícias + mais notícias