Sabado, 14 de Junho de 2014 - 11:23 (Polícia)

COMO O BRASIL APRENDEU QUE A COPA NÃO É SÓ FUTEBOL

Pode-se alegar que estamos em um “estado de exceção esportivo”, mas é fato que os preparativos da Copa escancararam a disfuncionalidade e injustiça do Estado brasileiro.


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Valdenor Júnior

Uma característica que torna o futebol um esporte genuinamente brasileiro é que sua predileção transcende classes sociais e estratos econômicos. Crianças e adolescentes de todas as classes podem jogá-lo. A bola pode ser improvisada e a diversão ainda estará garantida.

Mas, em 2014, o clima para a Copa no país está diferente. Temos a abundância de slogans como o “Não vai ter Copa”, protestos e uma opinião pública dividida em relação ao impacto do evento. Houve carta aberta dos atingidos pelos preparativos e, no último dia 15, o Dia de Luta contra a Copa, que levou pessoas às ruas em todo o país.

Para evitar a concorrência, de acordo com a Carta do 1º Encontro dos Atingidos pela Copa, “a Lei Geral da Copa estabelece zonas de exclusão de 2 quilômetros no entorno das áreas da Fifa, estádios e áreas oficiais de torcedores com telões, onde apenas os patrocinadores oficiais poderão comercializar”. O comércio ambulante, frequentemente reprimido, mas que movimenta bilhões de reais por ano, foi proibido de operar nestas zonas.

Pode-se alegar que estamos em um “estado de exceção esportivo”, mas é fato que os preparativos da Copa escancararam a disfuncionalidade e injustiça do Estado brasileiro. Os subsídios do BNDES para grandes empresas, a defesa intransigente da propriedade privada de grandes corporações combinada à persistente desproteção da posse das pessoas mais pobres e à ânsia em controlar seu acesso à terra, a repressão do trabalhador ambulante em um país cuja legislação e constituição pretendem ser a proteção da classe trabalhadora.

A distopia esportiva é realidade perene no país, que prejudica especialmente os mais pobres, visível agora por ter sido misturada a um dos eventos mais marcantes para os brasileiros. É o estado que sempre existiu, mas agora com um pretexto.

Não há ilustração melhor da diferença entre meios econômicos (trabalho, produção e troca) e meios políticos (apropriação forçada, uso de meios coercitivos), como definia Franz Openheimmer. Outra Copa era possível – sem desapropriações, sem repressão aos ambulantes, sem subsídios às grandes corporações. Teria que ser uma Copa sem o poder do estado, uma Copa de pessoas livres, sem o uso da força.

Em 2007, o governo afirmou que a Copa seria custeada inteiramente pela iniciativa privada. Mas isso nunca aconteceria com a estrutura de estado que temos. E nenhuma empresa assumiu o risco de uma Copa politizada como a brasileira. Neil Stephenson, emNevasca, afirmava: “[É] como o governo é. Ele foi inventado para fazer coisas que as empresas privadas não querem fazer, o que significa que provavelmente não há motivo para isso”. O governo, porém, também faz coisas que permitem que algumas empresas manipulem o mercado em seu favor.

“Que um grito de gol não abafe nossa história”, afirma a Carta do 1º Encontro dos Atingidos pela Copa. Se a consciência há de vencer, a injustiça estatal em nome do esporte não pode ser esquecida.

Fonte: Erick Vasconcelos

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