Sabado, 11 de Abril de 2015 - 11:47 (Colaboradores)

CRÔNICAS DA NOVA TERRA: O MAPINGUARI

Como se todo esse cenário de romance indigenista não bastasse, eis que me ocorreu um fato que mais parece uma narrativa de contos fantásticos.


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Algum tempo se passou desde meus últimos escritos, mas a guerra continua na mesma situação de equilíbrio e meu coração, na mesma situação de angústia (não vejo a mulher que amo já faz 10 dias). Entretanto, os alimentos estão cada vez mais escassos para ambos os lados e os conflitos têm sido evitados por esse motivo. Como se todo esse cenário de romance indigenista não bastasse, eis que me ocorreu um fato que mais parece uma narrativa de contos fantásticos.

Há três dias, estava eu caminhando sozinho pela mata, na margem direita do Rio Madeira, próximo à extinta Vila de Calama, quando de repente comecei a ouvir gritos no meio da floresta, como se fossem caçadores tentando imitar os sons dos animais para atraí-los. Porém, eu sabia que meus companheiros de revolução não poderiam ser, pois estavam em missão do outro lado do rio e não teriam chegado ao meio da mata tão rápido sem que eu os tivesse visto atravessar o leito, uma vez que eu estava na margem. Os Novos Humanos não andavam por aquelas bandas, pois sabiam que era um território nosso após a nossa saída do Forte Príncipe da Beira (devido ao difícil acesso ao local que nos causou isolamento).

Parei onde estava e percebi que o barulho continuava, mas estava mais distante, por um instante devaneei em uma história que meu bisavô havia me contado, sobre um ser que habitava a mata e era temido pelos ribeirinhos e seringueiros, pois imitava o ruído dos caçadores e, quando obtinha resposta, dirigia-se ao encontro do emissor para matá-lo. Num misto de curiosidade, descrença e devaneio, respondi aos gritos.

Um silêncio que pareceu ser infinito, mesmo durando apenas alguns segundos, acelerou meus batimentos cardíacos e dilatou minhas pupilas. De repente, ouvi um estrondo seguido de um barulho que me lembrou uma locomotiva rasgando o espaço e o tempo, meus devaneios me remeteram à Mad Maria e à antiga Porto Velho que um dia existira próximo dali. Mesmo devaneando, meu coração acelerava cada vez mais, percebi que, seja o que fosse, vinha em minha direção.

As árvores caiam gradativamente abrindo uma clareira em minha direção, mesmo tendo a coragem como principal característica, naquele momento, o medo tomava conta de mim.

Gigantesco, com apenas um olho, corpo todo revestido de pelos, a boca enorme e com dentes afiados, mãos e pés desproporcionais ao corpo de tão grandes e um odor de sangue que somado ao meu medo embrulhou-me o estômago, lá estava ele. Encarou-me por um breve momento e depois veio vorazmente ao ataque. Eu saltei em direção à água e só tive tempo de vê-lo abocanhando a enorme pedra em que eu estava em pé. Por minha sorte ou pela sua natureza, ele não adentrou na água. Após alguns minutos prendendo a respiração, tive que emergir para tomar ar e ele já não estava mais lá. Saí da água exatamente no ponto em que tudo ocorreu e encontrei um de seus dentes, uma enorme presa que agora uso como pingente em um cordão.

Que a força daquele ser esteja conosco nas lutas que virão adiante para que consigamos conquistar uma liberdade semelhante a dele e que encontremos um jeito de conseguir alimentos para que a fome não acabe com os dois lados da guerra.

Continua...

Renato Gomez

Fonte: Renato Gomez

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